O BANCO E SULEIMAN por Paulo Saldanha

 Consta que Suleiman El Ferran (nome fictício), um simpático libanês teria aportado em 1937 nestas plagas guajaramirenses. Vendia tecidos, perfumes, toalhas, fumo, farinha seca e d’água, queijo boliviano, corned beef, carne viandada em latas, charque, banha, querosene, velas, cordas, botinas, e uma diversidade de outros produtos amontoados, superpostos em improvisadas prateleiras ou dentro de caixotes feitos com tábuas de segunda.

Se não fossem os americanos os introdutores desse sistema no mundo, eu afirmaria que Suleiman foi quem concebeu a idéia para o exercício de um supermercado. Só que esse improviso dele não era organizado como o é no conceito americano e que o Brasil e os demais países copiaram.

Quem fosse comprar, de pronto, aspirava aquela mistura de cheiros em que o do tabaco se sobressaía, junto com os da farinha molhada em razão do furo no zinco que cobria o empório, cujo pingo da goteira caia na saca desse produto.

“Seguro”, nas despesas, um pouquinho avarento até, ele mesmo preparava a sua comida num fogareiro, logo, de uma boca apenas, tendo por refeições o café da manhã e o almoço ajantarado, saciando a bandida da sua ensandecida fome.

Consta ainda que, certa vez, depois de uma dormida noturna, Suleiman despertou com o estridente som remetendo-o à verdade de que alguém estava pesando algo na sua balança de estimação– só tinha essa. E intuiu, medroso que era, que algum espírito estivesse roubando-o.

De mansinho pulou a janela, foi no fundo do quintal e começou a gritar; alguns vizinhos ouviram os seus pedidos de socorro. Dentro do empório o barulho parava e continuava. Continuava e parava!

–que é que “ta” havendo “seu” Suleiman?

–Por Alá, estou sendo assaltado aqui “no meu” loja…

Enfim, Ambrósio Salgado, um cearence corajoso, arrombou a porta da quitanda, a tempo de ver que as ratazanas aproveitavam a quietude do lugar e tiravam nacos de um queijo. Mas para chegarem ao queijo tinham que pisar na tal balança, culminando com o som típico de quando é pesada uma mercadoria. E ladrão pesaria algo para roubar?…

Na manhã seguinte, Suleiman, após limpar o queijo boliviano, continuou a revendê-lo para a clientela, ainda que cuspido e babado pelos ratos. Quantos riscos de contaminação, heim? Naquele tempo nem se sonhava com a operação Carne Fraca… E nem tinha fiscal para agir em nome da vigilância sanitária, termo que só surgiria bem mais tarde.

Mas a história que desejo recordar é aquela que tem um misto de solidariedade humana para com um patrício dele, bem apessoado e falastrão, que chegara do Líbano, passando por Nova Iorque, Pananá, Venezuela, Peru e Bolívia.

Deu-se a conhecer com Suleiman após descobrir de que local era a família desse libanês, mais antigo. Fizeram-se amigos e um desejou ajudar o outro nos negócios. Até que o novato o convenceu a auxiliá-lo na abertura de uma firma, patrocinando mercadorias que o mais novo venderia em consignação.

O nome do novo amigo perdeu-se na memória do tempo, mas o certo é que ele pagava religiosamente a Suleiman, retirando os seus ganhos pelos artigos vendidos no dia anterior, ganhando confiança e ânimo do seu protetor para ampliar a parceria. Estaria preparando um golpe?

Mas um salto deveria ser dado, e o Banco da Borracha presente aqui em Guajará a partir de 1942 distribuía dinheiro em sacos. Suleiman ouviu do simpático neo amigo a idéia de que ele iria até Manaus ou Belém e compraria rios de mercadoria para revender a seringalistas, seringueiros, regatões e até para os irmãos de Bolívia, desde que Suleiman abonasse e avalizasse uma nota promissória perante o tal Banco regional.

Dinheiro farto, confiança mútua e mercado promissor, desde que produtos fossem colocados a preços competitivos. Ele, o neo amigo, quase já da família,  prometeu solenemente: acompanharia a compra e o transporte de tudo por navios e pela ferrovia Madeira-Mamoré. E verteu lágrimas de tão comovido!

Operação proposta, cadastro limpo, empréstimo encaminhado, o gerente aprovou um teto e o dinheiro foi disponibilizado porque o avalista era de confiança.

Note-se que a boa técnica bancária exigiria que crédito algum pudesse ser deferido em cima do cadastro do garantidor, mas sim do pretenso interveniente pagador, o proponente, – jamais do avalista.

O neo amigo, quase“brimo” pegou a dinheirama e partiu… não sem antes oscular o rosto do seu incentivador. E nunca mais voltou!

Vencida a Nota promissória, o gerente mandou chamar Suleiman e lhe apresentou a ficha registro do título vencido e impago.

–Caro amigo, a NP venceu. Deve ser paga. Eu sei que o seu primo escafedeu-se…

–Que “brimo”. Suleiman não tem “brimo” F.D.P!

–Senhor Suleiman, se não tiver o dinheiro todo, poderemos fazer uma reforma.

–mas que reforma, amigo gerente?

–Para ir amortizando a NP devagar, para não prejudicar os negócios do amigo–assim encaminhava o tema o hábil profissional, pois tinha sabido do cano que o neo amigo, quase “brimo” tinha dado no Suleiman.

–Nada devo, amigo gerente!…

–Como nada deve, se a assinatura é sua, homem de Deus?…

–Ai, Ai! Ai, “imboluto” gerente, isso escrito não é minha assinatura! Aí consta em árabe que “Suleiman jamais garantirá p* nenhuma”.

Simeão Salim Abud, foi chamado para traduzir o rabisco e confirmou: não era assinatura, mas uma afirmação: Suleiman jamais garantirá p* nenhuma…

Depois chegou o tempo de Suleiman ir até Porto Velho… E ele, a exemplo do neo amigo, seu antes querido “brimo” jamais retornou a esta Pérola.

E a Nota Promissória, vencida, impaga e sem solução de resgate virou pó; foi lançada na contabilidade do banco na rubrica “Créditos em Liquidação”; depois foi compensada em prejuízos.